Sobre a técnica
Texto sobre técnica e tecnologia
(Frame do filme Blade Runner 2049, 2017)
Introdução.
A época atual contém em si grandes avanços em diversas áreas técnicas como a da inteligência artificial, da internet, dos celulares, dos computadores, dos dispositivos digitais em geral, dos aparelhos eletrônicos, dos softwares, enfim, o desenvolvimento técnico de várias criações humanas antigas e novas. O presente texto é uma investigação do que é, de fato, a técnica e a tecnologia – ou seja, sua essência – para que, compreendendo isso, eu melhor entenda o que se passa ao meu redor, dos outros e na sociedade em geral. Muitas outras qüestões poderiam ser analisadas e esse estudo está longe de acabar – se é que um estudo qualquer possa, no verdadeiro significado da palavra, acabar. Começemos.
Técnica, tecnologia e resultado.
No estudo da técnica e da tecnologia os termos mais recorrentes são, talvez òbviamente, técnica e tecnologia, mas a maneira como diversas pessoas lidam com esses termos muitas vezes causa confusão e dúvidas, pois não se sabe a qual realidade elas estão se referindo: a técnica é a tecnologia? um produto que surge de uma técnica é tecnologia? se diferentes, a tecnologia possui efeitos para além da técnica? ou possui mesmo algum efeito para além de si mesma? a técnica depende da ciência? a tecnologia ou a técnica é o móvel da História? animais possuem técnica? qual a finalidade da técnica?, entre muitas outras indagações recorrentes que, se não são gerais, pelo menos a mim apareceram freqüentemente. Sendo o objetivo desse texto uma tentativa de iluminar certas dificuldades e dissipar certos erros que percebo como repetitivos, tentarei dar alguma contribuição à discussão de tão importante tema começando pelos seus elementos, ao que parece-me, mais básicos: a técnica e a tecnologia.
"O homem exerce a técnica." Essa é uma afirmação que, creio, todos possam aceitar e que resulta em outra: a técnica é alguma coisa que o homem faz. Não digo sòmente o homem, pelo menos por agora, pois ainda não chegou-se a essa parte do problema, mas apenas que ela – a técnica – é uma das muitas ações que o homem pode empreender. Uma dessas atividades, muito comum nos dias atuais, é correr (refiro-me ao contexto esportivo). Diversas pessoas praticam a corrida e treinam para tornarem-se melhores nela, percebendo seu desenvolvimento gradual ao decorrer do tempo: postura, alimentação, respiração, vestimenta, cronometragem, tudo concorre para que a pessoa que pratica a corrida a pratique melhor. A corrida é comumente aceita como técnica e pode-se falar, portanto, de uma técnica da corrida. Há pessoas que correm melhor do que outras, seja por serem mais rápidas ou por durarem mais tempo na empreitada sem fatigarem-se, e disso conclui-se: alguns homens são melhores em determinadas técnicas do que outros. Prestando mais atenção na técnica escolhida vê-se que, na maior parte dos casos, aqueles que exercem melhor essa técnica são justamente aqueles que mais tentam desenvolvê-la; dessa forma, o homem desenvolve conscientemente determinada técnica. No entanto, reconheço que não há apenas um tipo de corrida – ou, dito de outra forma, apenas um modo de correr – mas que ela pode ser exercida de diferentes maneiras e para diferentes finalidades: a pessoa que corre por motivos de saúde, outra que corre por motivos esportivos, outra que corre para fugir de alguém ou mesmo outro que corre para perseguí-lo. Os elementos que compõem cada uma dessas atividades não são os mesmos, apesar de externamente poder-se dizer que a pessoa está correndo – e portanto exercendo a técnica de corrida – e isso leva-me a concluir o seguinte: a técnica de algum modo depende da finalidade que o agente tem em vista.
O homem que exerce a técnica, dessa forma, possui uma finalidade (para quê), sabe que a esta exercitando (possui consciência do ato) e entende, pelo menos em sua forma mais básica, o que constitui essa técnica (o quê). Transpondo a análise para outros tipos de técnica, é possível ver que essas afirmações continuam válidas: a técnica de nadar, a técnica de escrever, a técnica de exercitar-se, a técnica de rezar, a técnica de construir, a técnica de comer, entre outras. O homem sempre sabe que está fazendo alguma coisa, que esse algo possui certas regras de funcionamento e que serve para chegar a determinado objetivo. No entanto, que a técnica é alguma coisa e que possui certas regras parecerá talvez óbvio, pois diz-se isso de qualquer coisa, o que me faz parecer necessário polir um pouco mais esse conhecimento ainda informe.
O que é a técnica? Tentarei dar uma definição a princípio temporária com base no que foi afirmado acima: a técnica é uma atividade exercida conscientemente pelo homem que visa a determinado fim. Parece ser uma boa definição, mas dois problemas surgem dela: primeiro, se a técnica é uma atividade ou as regras dessa atividade e, segundo, se a finalidade é determinada pelo homem ou pela técnica.
Correr, como acima foi mostrado, é uma atividade e uma técnica. Quando alguém diz que corre, sabe-se que essa pessoa pratica a técnica da corrida – e vice-versa; o mesmo serve para a atividade enquanto tal, ou seja, quando a pessoa está correndo. A pessoa pode, no entanto, saber correr e não estar praticando essa atividade naquele momento, mas apesar disso dizer que conhece a técnica da corrida; o contrário não é verdadeiro, pois não se pode dizer que alguém está correndo sem no entanto conhecer a técnica dessa atividade. Essa análise leva a crer, portanto, que a técnica é diferente da atividade apesar de estar presente quando esta se efetiva e que, assim, a técnica é a forma desse exercício e não ele mesmo como tal enquanto ato.1 Conhecer e fazer não são idênticos, no fim das contas. Vejo-me obrigado a mudar em parte a definição dada, para: a técnica é a forma de uma atividade exercida conscientemente pelo homem que visa a determinado fim.
O segundo problema permanece, a saber: a técnica define a sua finalidade ou é o homem que o faz? Aristóteles diz que tudo o que existe possui uma finalidade e que esta define o ser respectivo ("causa das causas"), mas ao aplicar essa noção à técnica surge uma questão: a finalidade da técnica é a finalidade de todas as técnicas? Apesar de cada técnica possuir sua finalidade, como já foi visto – e parece-me infrutífero examinar a finalidade de cada técnica particular –, a finalidade da técnica em si ainda não foi analisada aqui. Se é o homem quem pratica a técnica, a finalidade desta deve estar presente em cada ato onde sua existência particular apareça, e portanto será de bom proveito ir da definição geral dada às suas finalidades particulares para tentar encontrar um objetivo constante.
Considerando a técnica como atividade exercida conscientemente, segue-se que o homem que a exerce sabe por que o faz – e portanto possui algum objetivo em mente; a finalidade antecede o ato, ou "o fim do pensamento prático é o começo da prática", como diz Aristóteles (ambas teorias estão em De Anima). A técnica, sendo parte dos atos ou atividades humanas possíveis, deve seguir a mesma regra: é o homem que, querendo determinada coisa, a alcança por meio da técnica. Poder-se-ia dizer: toda vez que o homem possui uma finalidade em mente e executa atos para realizá-la, está fazendo técnica; é ele quem dá a forma da técnica e à técnica, inventando-a de acordo com determinada finalidade, e apesar de sentir-se limitado às suas regras ele sabe que estas só existem em função do objetivo colocado. Conclui-se, portanto, que é o homem quem define a finalidade da técnica. (Voltarei a esse ponto na parte do texto sobre as causas.)
Essas considerações sobre a técnica podem parecer excessivamente abstratas, sem aplicação prática aparente, ou mesmo generalistas no sentido de adentrar ou abarcar campos da atividade humana que não lhe são devidos – tais como rezar, andar, falar, pensar, etc. –, tendo em vista a definição dada. Há duas causas principais desse estranhamento: a atual visão cientificista da técnica, que considera como técnica apenas aquelas atividades em que a ciência experimental existe como um dos elementos ou mesmo o principal entre eles e, segunda, a confusão generalizada entre técnica, tecnologia e resultado. Analisarei as duas separadamente.
A "ciência", atualmente sinônimo de ciência experimental, pode ou não ser um dos elementos de determinada técnica, o que não torna essa mais ou menos técnica ou "tecnológica" mas apenas a faz tender ou perseguir resultados relativos a esse tipo de ciência. Afinal, a ciência experimental é também um tipo de técnica (vide definição) e possui finalidades bem definidas; igualar a forma essencial da técnica e a técnica da ciência experimental é substituir o todo pela parte. O homem que reza, por exemplo, não parecerá para a maioria um homem técnico – pois onde estão seus instrumentos, seus medidores, seus cálculos, seus aparelhos, suas novas invenções tecnológicas, suas conclusões sobre a Natureza? No entanto, a atividade de rezar é tão técnica quanto a atividade do cientista, e para prová-lo basta voltar à definição dada: ambas as atividades são feitas conscientemente pelo homem que persegue determinados fins e o faz de acordo com a regra ou forma dessa atividade respectiva. Por isso, pode ser dito que há a técnica da reza ou oração, a técnica da ciência experimental, a técnica de andar, a técnica de correr, a técnica de pensar, etc., nenhuma delas sendo mais ou menos técnicas do que as outras.
Duas outras questões podem surgir: primeira, como chama-se a técnica da técnica, ou seja, a técnica cuja finalidade é obter o maior entendimento e a melhor operação da técnica em geral; e, segunda, como chamam-se os resultados que uma técnica qualquer produz.
Sendo a técnica as regras de uma atividade qualquer, segundo a definição dada, a técnica da técnica deve ser as regras da atividade técnica em geral e seu conhecimento; nada mais conveniente, portanto, do que chamar 'tecnologia' a essa técnica da técnica, termo que constitui-se da mesma raiz (techné) seguida pelo sufixo logia, que indica o estudo detalhado de alguma coisa – o 'estudo da técnica', portanto. A tecnologia, contendo ela regras e finalidades particulares (tal como biologia, arqueologia, fisiologia, teologia, etc.), também é uma técnica.
Os resultados da técnica são antevistos pelos homens que a praticam, pois perseguem esse resultado de maneira consciente; mesmo antes da criação da técnica respectiva o resultado já existe em potência, tal como a árvore que está contida na semente, material ou idealmente (mais sobre isso na parte sobre as causas). Esses resultados podem ser categorizados de várias formas, tais como ferramentas, artefatos, imitações, utensílios, máquinas, entre outras; no entanto, nenhuma delas abarca a totalidade dos resultados técnicos. Por estar a técnica presente em quase todas as atividades humanas, e na totalidade das conscientes, seus resultados são melhor expressos pelo termo resultados técnicos, apesar de abrangente, podendo ser categorizados de diversas maneiras. Uma atividade abrangente pede resultados abrangentes, por assim dizer.
É um erro chamar aos resultados técnicos "tecnologias", pois esta sòmente pode ser entendida como o estudo de várias técnicas particulares e dos seus resultados, mas não como esses resultados mesmos. A única técnica capaz de gerar tecnologias é a técnica da tecnologia que, estudando a técnica, descobre conhecimentos sobre ela que são integrados nesse campo de estudo. No entanto, mesmo nesse caso o resultado não é uma tecnologia mas um resultado da técnica da tecnologia. Dito de outra forma, o que resulta da técnica ou da tecnologia não é uma "tecnologia", mas um resultado que condiz com a técnica empregada, apenas – seja um conhecimento da técnica (técnica da tecnologia), um instrumento (técnica dessa fabricação), um objeto (técnica qualquer de manufatura), etc. Dizer que a técnica produz tecnologias é como dizer que um novo conhecimento do comportamento animal produz "biologias" ou de forças da natureza, "físicas". Em suma, os resultados da técnica não são tecnologias mas simplesmente resultados da técnica. Responde-se, assim, ao segundo estranhamento mencionado acima.
Algumas das dificuldades que foram colocadas no começo desse texto puderam ser resolvidas, me parece, nesta primeira parte através da análise da técnica em si mesma, mas há outros problemas que para a sua solução necessitarão de um conhecimento não apenas da técnica como tal, mas também das suas causas. Este será o assunto da próxima parte.
Condições e causas da técnica.
Na técnica, como em qualquer outra atividade ou mesmo coisa existente é possível diferenciar entre condições e causas: as primeiras são aqueles elementos sem os quais a "coisa" não poderia vir a existir; as segundas, as causas efetivas dessas coisas – ou seja, o que a traz à existência.2
Entre as condições há os elementos que constitutem a possibilidade da técnica e, para encontrá-las, será de proveito voltar à definição dada: a técnica é a forma de uma atividade exercida conscientemente pelo homem que visa a determinado fim. Para que tal forma possa vir a existir são necessárias, portanto, alguns elementos: consciência, finalidade, meios da busca e conformidade. Nenhum deles faz, por si ou conjuntamente, com que a técnica venha a existir, por isso são chamados de condições e não de causas (são como as "causas materiais", não as "eficientes", para usar os termos aristotélicos).
A consciência é necessária para que haja uma busca consciente, ou mesmo conhecimento de que se deve ou se pode buscar qualquer coisa que seja. Se não houvesse nenhum ser consciente não haveria técnica, e disso resulta a inexistência desta entre os animais, plantas e minerais. Os seres inferiores em relação aos humanos podem possuir uma "razão incompleta", por assim dizer, como o instinto entre os animais que, sem compreenderem a relação entre as coisas senão de uma forma material e "instantânea" (ou seja, sòmente no instante em que as coisas materiais – e sempre materiais – se apresentam), não chegam a possuir consciência ou razão, pois estas são sempre relações ou proporções "para além" ou "para cima" das coisas mesmas. Os animais sentem calor, mas não sabem que o calor é quente.3 As plantas também não possuem consciência, nem instinto, mas agem e movem-se de acordo com o ambiente imediato; são mais agidas do que agentes apesar de serem, em sua forma, mais complexas do que os minerais. Os minerais, por último, são totalmente agidos – poder-se-ia chamá-los de "agentes passivos por excelência" da Natureza. Sòmente os humanos possuem essa capacidade de, vendo, verem mais do que vêem e, pensando, pensarem mais do que pensam; de terem noção do que é e, através disso, perceberem4 o que não está sendo, o que pode ser e o que nunca foi. Essa prática é a consciência por excelência, ou seja, saber não apenas o que se apresenta na sua "materialidade perceptiva" mas, para além e com base nela, também as relações (o prefixo co- de 'consciência' indica isso) entre as coisas e eles mesmos, entre elas e os outros entes e entre elas e elas mesmas. Em suma, sòmente as experiências humanas podem transformar-se em conhecimentos que perpassam e ultrapassam essas experiências primeiras.
Tendo isso em vista, a definição poderia ser alterada para: a técnica é a forma de uma atividade exercida conscientemente que visa a determinado fim, pois ter consciência é próprio do homem. Há atividades que são exercidas de certa forma pelo homem mas que não são conscientes, tal como respirar; ninguém negaria que o homem respira, mas só se pode dizer que ele realmente o faz quando há consciência no ato – sem isso, seria mais correto dizer que é o corpo quem respira e não o homem. Creio que os budistas difìcilmente cometeriam o erro de confundir a respiração biológica, aquela que todos os homens fazem e a respiração exercida conscientemente para a finalidade meditativa que, por isso mesmo, chama-se técnica. Também há atividades exercidas pelos animais que visam a determinado fim, ou seja, os animais sabem por que estão fazendo o que fazem – possuem um motivo –, mas a "consciência" que possuem dessa atividade e desse fim tem sempre a forma de uma resposta instantânea a algum estímulo sempre externo a eles mesmos, nunca de um conhecimento que permanece para além da atualidade como se presente estivesse – com todas as suas ligações, seus efeitos, suas causas extraídas das experiências mesmas.5
A segunda condição é a finalidade, pois a atividade técnica visa a determinado fim e, se o agente da técnica não conseguisse definir um determinado objetivo para seus atos, não haveria técnica. Como uma técnica determinada é a forma de uma atividade qualquer e apenas isso, conclui-se que a finalidade do agente da técnica não decorre da finalidade da técnica; dito de outra forma, quem pratica determinada atividade técnica, por esta necessitar de um agente consciente, pode divergir nesse mesmo ato de outros objetivos de agentes diversos e mesmo, por possui subjetividade (mais sobre isso adiante) do objetivo último do seu próprio ser. Os animais, por não possuírem consciência, agem de forma constante e sempre de acordo com suas formas respectivas – um pássaro constrói ninhos, formigas constroem formigueiros, lobos formam alcatéias, etc., e nenhum deles deixa de fazer exatamente isso para empreenderem novidades, invenções ou atividades que contrariem esse constante modo de agir. O mesmo diz-se dos outros entes e seres da Natureza. Essa diferença que pode haver no homem entre finalidade formal ou última e finalidade técnica será melhor analisada em outra parte; por agora, basta que seja mostrada a necessidade de uma finalidade – e finalidade consciente – para que haja técnica.
A finalidade da técnica deve ser conscientemente colocada, prevista ou conhecida para que o agente busque esse fim, pois a consciência, como já foi mostrado, é uma das condições da técnica. Gasset diz que há "técnicas do azar"6, entendidas no sentido de que surgem da sorte sem uma busca consciente por elas. O autor as coloca como "primitivas", pois na ordem de complexidade devem vir primeiro e de uma forma passiva, quase como "dadas" ao homem. A descoberta do fogo, por exemplo, é colocada entre essas "técnicas do azar". No entanto, há uma confusão – pelo menos nos termos em que a questão se coloca – entre técnicas pròpriamente ditas e as suas condições materiais. O homem pode ter descoberto pela sorte que a "fabricação" artificial de fogo é possível, mas até que haja uma busca consciente nessa atividade não há técnica pois a possibilidade que o homem possui de fazer fogo por meios artificiais existe desde que há humanos no mundo, mas a técnica só passa a existir efetivamente depois que o homem descobre para ele mesmo a forma dessa atividade. As "técnicas do azar" possuem sua origem na sorte7, mas não sua forma ou finalidade, e como bem diz Mason: "[...] acidentes fortuitos não dão lição alguma àqueles que já não estavam prèvicamente alertas."8 Dessa forma, a finalidade consciente do homem continua sendo uma condição da técnica sem a qual esta não existiria, tendo em vista que as finalidades dos animais não bastam e o seu objetivo, considerado em si mesmo (de maneira formal ou ideal), não faz com que a técnica se efetive no mundo: para isso é necessário um agente que também possua uma finalidade consciente.
A terceira condição da técnica são os meios de busca, ou seja, havendo um ser consciente que possua uma finalidade consciente, ainda faz-se necessário a existência de possibilidades reais que permitam a busca ou realização da atividade em direção a determinado fim. Se o homem busca voar como os pássaros o fazem usando sòmente os movimentos do seu próprio corpo, sem instrumento algum, ou se busca respirar em baixo da água como os peixes, mesmo que coloque essa finalidade de maneira consciente para si, não logrará bons resultados pois não há meios de fazê-lo. Se tudo o que o homem pudesse buscar fosse impossível para ele, mesmo possuíndo consciência e podendo definir finalidades diferentes das naturais (comer, dormir, etc.), não haveria técnica porque os meios para realizá-la seriam sempre insatisfatórios. No entanto, sabe-se o homem busca muitas coisas que, sem nunca tê-las possuído ou mesmo sem nunca ter colocado anteiormente essa finalidade para si, podem ser obtidas – e na maior parte das vezes o são. Isso se dá não apenas porque o homem possui consciência e pode definir finalidades, mas porque consegue perceber os meios apropriados a determinado fim e, claro, porque esses meios existem efetivamente. Os meios de busca são muito maiores e mais complexos para o ser humano do que a qualquer outro ser desse mundo: um animal qualquer nunca conseguiria, mesmo que possuísse consciência, construir um castelo, armas de destruição em massa, um código de leis ou uma simples caneta, não porque ele não queira mas porque, assim como o humano não pode voar como os pássaros ou respirar como os peixes, não está aberto para ele esses complexos meios de busca dados pela Natureza. Ad impossibilia nemo tenetur, diz o princípio legal, e com isso passamos à última condição – talvez a mais complexa e bela entre as três.
A quarta condição para que a técnica exista chama-se conformidade, ou seja, certa semelhança entre a forma do agente técnico e a forma do objeto sobre o qual ele atua; o agente, nesse caso, é o ser humano e o objeto, a Natureza – ou seja, tudo aquilo foi criado ou "que há", incluído o homem. A conformidade é o que permite o funcionamento da consciência, a correta colocação dos fins e a execução de certas ações para chegar aos objetivos determinados – sem ela, o ser humano achar-se-ia em um caos onde nada possui sentido a ele.
Muito se fala sobre o "domínio do homem sobre a Natureza" ou o "controle ou subjugação da Natureza pelo homem", mormente a partir dos séculos XVI e XVII com o advento na ciência experimental moderna, mas essas expressões, quando comparadas com o que realmente acontece na relação do homem com a Natureza mostram-se insuficientes ou mesmo falsas. Isso se dá porque o homem está dentro da Natureza e dispõe dela para viver, como qualquer outro ser que existe, apesar de possuir meios mais complexos de fazê-lo. Longe de mim considerar o homem como um mero animal puramente material determinado pelo ambiente, como alguns fizeram ou ainda o fazem, porém a própria "anti-naturalidade" do ser humano – sua consciência, seu espírito, sua alma, etc. – está dentro dessa Natureza, não fora, e portanto só pode agir em conformidade com ela. O "controle" que o ser humano tem sobre a Natureza não ultrapassa a forma controlável que a própria Natureza lhe oferece tanto quanto o "domínio" ou a "subjugação": a Natureza permanece com sua mesma forma apesar das transformações que o ser humano opera nela sempre através dela. É como um servo que, desejando possuir liberdade, clama vitória quando seu senhor lha concede sob certas condições e apenas temporàriamente. A forma do ser humano permite que ele usufrua da Natureza para que, o fazendo, chege à completude formal; a forma da Natureza, do mesmo modo, permite que esta seja alterada pelo homem sem que haja discontinuidade entre matéria e forma – o que é impossível, pois a Natureza deixaria de ser ela mesma. O ser humano pode, como todos os seres, alterar o ambiente mas nunca a Natureza. Isso é o que chamo de 'conformidade', condição para que a técnica exista.
Antes de passar para as causas, ou seja, ao que efetivamente traz a técnica à existência, tratarei de três "elementos" ou "aspectos" (na falta de melhores termos) da realidade que fazem a ligação entre condição e causa através da conformidade. Os três são os seguintes: o espírito9, a forma mesma e a subjetividade, "internos" e "externos" (do ponto de vista humano).
O espírito é o que dá a forma ao ser e que, portanto, define seu sentido e sua finalidade. Na realidade não há mais que um só espírito e este é a causa tanto da forma do homem quanto da forma da Natureza (no sentido externo, como já dito, e poder-se-ia dizer "da forma do mundo material"). A conformidade é, no que diz respeito ao espírito, a ausência de contradição entre a finalidade das várias formas pois estas surgem de uma mesma origem e, sendo o criado nada mais do que o conjunto dessas formas, a desconformidade significaria não uma contradição com outro ser mas uma consigo mesma. Dito de outra maneira, é impossível que haja contradição entre as formas pois essa mesma contradição entraria como elemento da forma total – o Todo criado pelo espírito – e, portanto, faria parte tanto da forma geral quando de determinada forma particular. A técnica, sob esse aspecto espiritual, sendo uma atividade humana não pode contrariar nem a forma do homem, nem a forma da Natureza, e sendo conjuntamente uma forma que surge do espírito não pode contrariar o sentido e a finalidade deste; sòmente enquanto ato ela pode fazê-lo, não do ponto de vista espiritual mas do subjetivo (o que será visto em seguida).
A forma mesma é a "fórmula" (no sentido aristotélico) da coisa ou do ser, ou seja, o que define a sua essência. O presente texto não é apropriado para uma análise da forma do ser humano e da Natureza, bastando que o leitor entenda a noção geral de forma para que compreenda as suas relações com a técnica. Tudo o que o ser humano pode fazer ele verdadeiramente o pode, assim como a Natureza (sentido externo), porém ambas possibilidades gerais não possuem uma ligação total entre os seus elementos – como no caso do peixe e do humano, um podendo respirar em baixo da água e o outro, não, apesar de ambos estarem dentro do mesmo mundo ou Natureza. Em todos os pontos em que há ligação, no entanto, o homem pode agir e a Natureza pode reagir, e vice-versa, encontrando-se aí a conformidade entre ambos. Percebe-se que não se está mais considerando a conformidade simplesmente no aspecto espiritual (do espírito), onde não há contradição alguma pois não pode havê-la, mas a conformidade que se dá na relação real ou "material" entre homem e natureza que, na forma de ambos, está desde o começo da existência formulada. Tampouco havendo contradição sob esse aspecto, há no entanto certa negação ou impossibilidade de certos atos (lembre-se do peixe) ao ser humano e à Natureza em relação a ele que, considerados conjuntamente com as possibilidades, formam a condição do homem neste mundo. A técnica é, sob esse aspecto formal, o conjunto das regras de todas as atividades humanas possíveis que, havendo consciência, visam a determinado fim, e na fórmula mesma de cada técnica particular já estão dados todos os desenvolvimentos possíveis da atividade eminentemente humana; nesta, desse modo, inserem-se as dificuldades em relação ao meio, ao ambiente, à Natureza, à si mesmo, os êxitos e tudo o mais que é possível ao ser humano fazer conscientemente no mundo em que vive.
A subjetividade, por fim, é o que caracteriza o sujeito de uma ação qualquer e, nesse sentido, a objetividade será o objeto sobre o qual o sujeito age: aquela constitui o modo e o processo do agente; esta, as reações do objeto. Não falo da objetividade da coisa em si, no sentido kantiano, independente de sujeito e de ação, nem da subjetividade como "pensamento", "sentimento" ou qualquer outro dos termos modernamente confundidos com ela, mas de ambas como foram definidas acima. É possível enxergá-las como forma em ação, ou seja, os diversos modos de agir ou de "ser" das coisas existentes de acordo com suas formas.
A subjetividade da Natureza (sentido externo) constitui tudo o que ela faz e o homem, nesse sentido, sendo o objeto (o elemento objetivo) está inserido dentro dessa Natureza e age ante ela e através dela, tornando-se desse modo sujeito e ela, objeto. Certas idéias difundidas que fazem do homem o "modificador" ou "transformador" da Natureza estão erradas, tendo em vista o que foi dito, pois esse processo contínuo de troca entre subjetividade e objetividade ocorre também não apenas com os animais mas com todos os outros entes existentes e, dessa forma, nenhum modifica mais ou menos a Natureza externa pois ela sempre reage em conformidade com as ações recebidas, nunca sendo "modificada" ou "transformada". Surge uma questão: poderia ser dito, no entanto, que o homem modifica não a Natureza como tal mas o ambiente, ou seja, o lugar material e não o processo que o constituiu e constitui? Spier diz que conhece-se os lugares pelos quais o ser humano passou através da modificação, da alteração humana10 a que foram expostos, porém essa modificação do ambiente pelo ser humano diferencia-se da animal apenas quantitativamente, ou seja, o homem modifica mais do que o animal mas não de maneira diferente: as formigas, os pássaros, as erosões, o aquecimento, enfim, tudo quanto existe dentro da Natureza modifica o ambiente de uma forma ou de outra e, portanto, esse elemento não pode constituir-se como o diferenciador do humano por excelência. O que acontece, na realidade, é que o ser humano transforma o local "humanamente", os animais "animalmente" e assim por diante; descobrir o que é esse "humanamente" definirá o modo de agir humano, ou seja, o elemento subjetivo deste. Por causa disso continua sendo um erro dizer que o homem modifica ou transforma a Natureza, pois isso todos os seres fazem – o que torna essa afirmação nada mais do que um flatus vocis.
A subjetividade do ser humano foi muito bem tratada por Gasset, já citado anteriormente, distinguindo o homem pela sua incompletude ou "por ser o único ser que nesse mundo precisa fazer-se", que não basta estar e seguir sendo na mesma condição durante toda a sua existência – diferenciando-se dos animais que já nascem "completos" e que possuem enorme constância durante seu processo vital. Poder-se-ia dizer que na Natureza nós "vivemos, nos movemos", mas não somos. Que o ser humano não sente-se completo ao simplesmente sobreviver, satisfazendo suas necessidades mais básicas (fisiológicas e biológicas), creio que todos concordem; também que a Natureza dispõe ao homem tudo o que ele necessita e ainda mais do que isso creio ser um fato inegável. Por causa disso, o ser humano agente (subjetivo) utiliza-se da Natureza externa e objetiva em vista de finalidades supérfluas11 do ponto de vista vital, biològicamente falando, mas que são essenciais para lograr sua completude. A Natureza, enquanto isso, dá e recebe contìnuamente os elementos dos quais o ser humano necessita para atingir tal fim, sempre agindo de acordo com suas possibilidades, sua forma e em conformidade com o princípio espiritual – o mesmo valendo para o homem. A técnica, do ponto de vista da subjetividade humana, é o processo através do qual o homem utiliza os elementos recebidos da Natureza para chegar a um objetivo determinado, seja ele qual for; sendo o ser humano o agente do processo, ele constitui-se como causa efetiva da técnica e é quem dá princípio a ela e o motivo dela existir. Com isso, passo a falar sobre as causas pròpriamente ditas.
A causa da técnica está intrìnsecamente ligada à subjetividade do ser humano, pois sem a agência deste ela não existiria e, por ser consciente, necessita de um motivo. O ser humano nada faz sem alguma razão para fazê-lo, mesmo nas atividades mais simples como caminhar, olhar para alguma coisa, espreguiçar-se, sentar-se, etc. e é a partir das suas ações mais básicas que a técnica surge. O surgimento e o desenvolvimento da técnica, nesse sentido, só ocorrem porque o homem decide fazer algo em vista de algum objetivo; por ser um ser racional, consegue "captar" as interrelações que há na Natureza e usá-las a seu favor, como dito anteriormente. Para isso a vontade faz-se necessária, pois é ela o que move o homem através do processo técnico em direção à finalidade colocada por ele, sendo a busca pela técnica também uma técnica (vide definição). Pode-se ver que tanto a técnica quanto a vontade são dependentes não apenas da existência do homem (condição) mas também da finalidade (causa final) que este coloca, assim como este objetivo é dependente do fim último do homem que este coloca para si – que pode ou não estar de acordo com sua finalidade real, determinada pelo espírito (Deus). Para alongar-me mais nesse ponto seria necessário falar sobre a essência do homem, mas creio que este texto não é apropriado a essa longa discussão: basta saber que o ser humano, definindo finalidades para suas ações particulares (as técnicas), o faz como agente consciente do processo da sua própria vida do qual essas ações particulares são apenas partes, sendo o homem o todo12 no qual elas fundem-se e ganham sentido; dessa forma, o ser humano é subjetivo como agente do processo e objetivo como sujeito consciente que forma-se através e por causa dele. Sòmente nesse sentido é que a técnica pode ser entendida como formadora do homem – sem cair no determinismo onde apenas a técnica age e o ser humano é agido, ou na moderna idéia de "força de vontade" em que o contrário acontece – e, talvez com alguma ressalva, afirmar com Gasset que "o homem é homem por causa da técnica"13.
Para compreender uma técnica, tendo isso em vista, torna-se mais importante conhecer o homem que a pratica do que as suas regras internas – pois o processo técnico depende mais da finalidade do agente do que este, daquele –, ainda mais quando entende-se que, como afirma Usher, "o modo de ação particular na técnica, não na sua finalidade"14. O homem não apenas condiciona o desenvolvimento da técnica mas a cria de acordo com seus objetivos e, por causa disso, uma mesma "técnica geral" pode possuir muitas ramificações (como no caso da corrida, anteriormente citado, ou das técnicas bélicas posteriomente desenvolvidas para fins civis e vice-versa); por causa disso, no processo de determinada técnica pode haver atividades em quantidade tão ilimitada quanto objetivos, pois são estes que movem o homem a fazer algo através da técnica e, como sabe-se, não há limites para o desejo humano. A Natureza, nesse processo, atua como elemento neutro, pelo menos considerando-a em si mesma, e o seu maior ou menor auxílio dado ao homem dependerá da atividade deste e de como esta se conformará aos processos naturais. A subjetividade humana, do ponto de vista da conformidade, é o elo mais fraco porque dependerá da consciência humana, do raciocínio, do conhecimento das possibilidades materiais, entre outros fatores para obter êxito na empresa técnica, estando portanto nela a medida de maior ou menor sucesso da atividade – não há "técnicas erradas", apenas atividades humanas que não chegaram aos objetivos desejados por diversas razões, e dessa forma o erro não está na técnica em si, sendo este apenas o fruto de erros humanos; novamente, o foco deve estar na finalidade humana e não na forma da técnica, pois esta depende daquela.
Compreendendo as condições e as causas da técnica torna-se possível entender como elas surgem, quando o fazem, o motivo, os seus objetivos, seu processo, suas possibilidades, seus efeitos, etc., porém paradoxalmente não através da análise da técnica em si mas do homem, sua natureza, suas crenças, suas finalidades, suas influências, etc. Seja o homem primitivo, o medieval, o romano, o grego, o moderno, o renascentista, enfim, qualquer homem em qualquer época, sabe-se que ele é em essência o mesmo que todos os outros de qualquer outra época, apesar de pôr em prática técnicas diferentes devido a finalidades distintas e, claro, à própria situação em que vive, que nunca é a mesma (Gasset a chamaria de "circunstância"15). A Natureza ou ambiente, enquanto isso, permanece tão constante quanto o homem, no que diz respeito à sua forma, mas como ele é também transformada externamente e reage de acordo – restando ao ser humano, nesse caso que é sempre o mesmo caso, encontrar conscientemente a razão que mais lhe convém entre sua essência, sua subjetividade (agência), sua atividade ou processo (técnica) e a Natureza ou ambiente – que, coincidentemente ou não, podem ser vistas como as quatro causas de Aristóteles, respectivamente: causa formal16, causa final, causa efetiva e causa material. Essas conclusões sobre a técnica poderiam ser aplicadas à análise da invenção, da descoberta e dos seus efeitos, creio eu, com grande proveito.
Outras questões.
Sobre a neutralidade da técnica.
Muito se fala sobre a neutralidade da técnica ou das invenções humanas e os argumentos tanto contrários quanto a favor extendem-se ad infinitum. Para tentar chegar a alguma conclusão a respeito voltarei ao que foi dito anteriormente sobre a técnica, o homem e a Natureza porque é sòmente indo à raiz de um problema que sua solução torna-se possível.
Começarei com um exemplo real que ajudará a elucidar a qüestão: a técnica que é freqüentemente utilizada em um homicídio e que compõe-se, parece-me, da melhor maneira de matar, de não deixar rastros, de fugir se necessário, de fingir inocência, entre outras (não sou um especialista no assunto, diga-se de passagem). Que o homicídio, ou seja, a morte causada a uma pessoa por outra de forma ilegítima não é neutra, creio que todos concordem, e que ele (o homicídio) é mau ou ruim parece-me consenso geral. No entanto, como já foi visto no início desse texto, a técnica difere da atividade pois aquela é a forma ou a "idéia" dessa e seu valor só pode ser julgado, portanto, enquanto ato; mesmo quando a técnica está ligada à determinada atividade – alguém planejando um homicídio, por exemplo –, o valor dessa idéia é julgada pelos seus possíveis efeitos concretos.
Tendo em vista essa diferença entre a forma da técnica e a sua atualização, surge a pergunta: em qual delas está o valor? Se estivesse na primeira, ou seja, nas regras de determinada atividade, por não ser ainda ato a existência mesma dessa possibilidade de agir deveria ser boa ou má, assim como a consciência dessa forma e o seu estudo; falar sobre o homicídio, se mau, deveria ser considerada uma atividade má pois a sua forma mesma é má e não simplesmente sua atualização em fato – o que colocaria o que estou fazendo agora como algo mau. Isso porque, se a forma mesma de algo é boa ou má, não há possibilidade de que ela exista sem que essa existência traga em si mesma essa valoração. No entanto, há especialistas em homicídio que, apesar de conhecerem essa técnica muito bem, não a praticam e, dessa forma, não são considerados maus por causa disso (como detetives, policiais, investigadores, etc.); outros, por a praticarem, são considerados maus (homicidas). Apesar de parecer clara, há um problema ou "falta" nessa análise que serviria muito bem como contra-argumento: o estudo dessa técnica só existe porque pessoas a põem em prática, ou seja, porque ela existe concretamente e como sempre que alguém a pratica aparece como má, ela é má em si. Como resposta pode ser lembrado o que foi dito a respeito do agente da técnica: uma determinada técnica nunca existe sem que alguém a ponha em prática, desde a colocação do objetivo e sua idealização até a sua efetização, e como o homem (que é sempre o agente, por ser consciente) a precede, a valorização deve estar neste e não naquela. Dito de outra forma, ela só é má porque é efetivada por algum agente que possui finalidades más. Tudo indica, portanto, que a valorização está na atualização da técnica e não na sua forma.
A técnica do homicídio, tendo em vista o que foi dito, não é má em si – ou seja, as regras que a formam – mas sòmente torna-se má no momento em que é praticada tendo em vista objetivos maus. A forma de qualquer coisa não pode possuir valor porque entre as formas há sempre conformidade, assim como entre elas e o espírito (vide o que foi dito na outra parte sobre isso); é apenas quando a subjetividade aparece como elemento que pode haver valorização, pois o valor é relativo a determinado fim e não às possibilidades intrísecas de cada coisa consideradas formalmente. Poderia ser dito: o homicídio é mau porque os homens não deveriam se matar sem motivo lícito; assim, o valor aparece quando se tem em vista o homem e não a técnica, pois é aquele que através desta tenta chegar aos objetivos que colocou – algo que tentei demonstrar ao longo da primeira parte desse texto.
Parece-me que essa conclusão sobre a neutralidade da técnica mas não da sua atualização pode ser aplicada às demais técnicas e lograr o mesmo resultado. O homicídio, no entanto, parece já dar a resposta a essa qüestão pois em sua própria definição já há um elemento valorativo: a morte causada por motivo ilegítimo. Quem define o que é ilegítimo senão o homem? A técnica do homicídio, sob esse ponto de vista, é uma aplicação má da técnica geral de matar – podendo haver aplicações boas, como ocorre na legítima defesa ou na guerra justa. Como mostrado anteriormente no exemplo da corrida, uma técnica geral pode possuir diversas ramificações particulares, nem boas ou más em si mas sòmente quando julgadas em relação e de acordo com o valor do agente: o homem (vide nota 12, citação de Ubbelohde).
Sobre as "épocas tecnológicas" e desenvolvimento.
É comum dividir a história da tecnologia em eras, assim como se faz em História geral, e para a época atual são comuns termos como "era digital", "era da informação", "era da internet", entre outros. Não há nenhum mal em fazer essa divisão histórica para fins de simplificação – os historiadores sabem disso e conhecem as suas limitações –, mas podem surgir alguns problemas mais ou menos relacionados a essa visão histórica, sendo talvez o principal deles a crença de que a atual "era" é mais tecnológica do que as anteriores, tendo em vista o desenvolvimento técnico.
Essa visão histórica pode ser chamada de progressista, em geral, ou cientificista para a época atual, pois é a técnica da ciência a que prevalece nos dias de hoje – pelo menos desde o século XVIII, começando ao século XVI. O homem atual, por sua vida depender muito mais de máquinas do que os homens de outras épocas, freqüentemente por causa disso pensa-se que nos dias atuais há mais técnica ou "tecnologias" do que em qualquer outra época passada; no entanto, essa visão mostra-se falsa quando todas as técnicas são consideradas e não apenas as mecânicas (aquelas que servem para criar ou construir novos aparelhos, instrumentos, etc. físicos).17
Saber que em certa época determinada técnica estava mais desenvolvida do que em outra não nos diz nada sobre o valor da técnica – ou seja, se sua aplicação foi boa ou má –, apenas que "interna" ou formalmente ela possibilitava ao homem certas atividades antes consideradas impraticáveis ou mesmo impossíveis. A "Era Atômica" é um bom exemplo disso. Afirmar que o desenvolvimento de determinada técnica é bom simplesmente porque houve desenvolvimento é uma das características do pensamento progressista, contrário à verdade pois, como já foi dito, a valorização de determinada técnica se dá na maior ou menor conformidade da finalidade técnica à finalidade essencial do ser humano. A possibilidade de existir bombas atômicas, nesse sentido, não é boa nem má mas sòmente ganha valor quando é aplicada de uma ou de outra maneira.18 Isso serve não apenas para o desenvolvimento dessa técnica de utilizar energia atômica como para qualquer outro: o desenvimento da técnica científica, da técnica do rito religioso, da arquitetura, etc.
Essa conclusão torna-se mais clara ou mais real quando aplicada à era atual: a da "Informação" ou "Digital". A presente época pode ser chamada de "da Informação" não apenas por causa dos vários instrumentos que foram criados para facilitar a obtenção de informações como também pelo lugar de suma importância que a "informação" ocupa nas relações sociais, políticas e econômicas, principalmente por causa da Internet e da Web. O problema surge quando confunde-se a quantidade de informações disponíveis ou as intermináveis possibilidades de obtê-las e o conhecimento efetivo das coisas às quais essas informações se reportam. O primeiro elemento surge de uma divisão histórica que possui significado histórico; o segundo (a confusão), da conclusão a que o ser humano chega partindo do conhecimento – mesmo que implícito, "empírico" – de que estamos na "Era da Informação".
A quantidade de informações disponíveis não diz nada sobre o valor dessas ou da sua efetiva transformação em conhecimento, pois estes dependem da correta utilização humana dessas informações (atividade, aplicação) e não da sua simples existência. O valor da era atual, como de todas as outras, depende portanto da finalidade do ser humano enquanto agente da técnica (no sentido atual, da transformação de informação em conhecimento, da filtragem correta das informações, etc.), não do desenvolvimento da técnica enquanto tal. Poderia ser dito que a "Era da Informação" é assim chamada pois há mais informações no sentido quantitativo, não revelando nada sobre o seu aspecto qualitativo. Não conheço nenhuma obra atual tão completa e articulada lògicamente quanto a Suma Teológica, um poema tão simbólico e profundo quanto a Divina Comédia, uma filosofia mais abrangente do que a de Platão ou a de Aristóteles; concepções políticas mais belas e virtuosas do que as de Lao Tsé e de Santo Agostinho; articulações mais completas entre homem e Natureza do que as do Egito Antigo e da Idade Média; artes mais ilustres do que as dos homens medievais, dos da época barroca e dos renascentistas; e a lista poderia seguir indefinidamente. No entanto, temos mais acesso a informações do que essas antigas civilizações; por que, então, poderia ser perguntado, não produzimos resultados técnicos (pois tudo o que foi citado é exatamente isso) tão bons e magníficos quanto elas? Porque, possuindo incontáveis informações, muito mais do que qualquer homem de outra época jamais pôde sonhar, raras vezes as transformamos em conhecimento e, quando o fazemos, mormente temos em vista resultados materiais, instrumentais, "científicos" – pois as técnicas que os produzem são as mais valorizadas atualmente. À mesma conclusão chega-se ao analisar o termo "Era Digital", ou seja, que usamos e produzimos ferramentas digitais, mas nada sabe-se a respeito de como o fazemos.
O valor do desenvolvimento é encontrado, antes de tudo, no desenvolvimento humano19 e não na técnica que o homem emprega – esta por si nada diz, como foi visto no exemplo do homicídio. O problema ou confusão que surge ao considerar o desenvolvimento técnico equivalente ao desenvolvimento humano só pode ser resolvido ao retomar o que significa, verdadeiramente, ser humano (sua essência), subjugando a técnica às finalidades reais deste sem considerá-la boa em si mesma20. A técnica da oração, por exemplo, não me parece ser tão bem empreendida quanto o era na Idade Média, ou mesmo todas as técnicas relacionadas à religião, mas julgo-as essenciais – quando bem efetivadas – para um correto e bom desenvolvimento humano, apesar de seus resultados relacionarem-se apenas indiretamente com os objetivos atualmente visados pelas "principais" técnicas e não garantirem, por si, um maior desenvolvimento econômico (espécie de pedra-de-toque para julgar o valor dos desenvolvimentos atuais).
Sobre a tecnocracia.
Atualmente há uma grande possibilidade de que forme-se um governo tecnocrático, que nada mais é do que um Estado onde técnicos e outros agentes "secundários" (engenheiros, cientistas, etc.) tomam as decisões governamentais, tendo como objetivo o controle da sociedade e do desenvolvimento técnico que nela ocorre. Há planos para que esse tipo de regime seja efetivado desde pelo menos 1930, com a Technocracy Inc., e pode ser dito que a origem remota dessas idéias está na crença de que o homem é uma máquina (Descartes já afirmava isso, no seu Discurso do Método, com a ressalva de "o homem é uma máquina mais complexa do que as outras"). Não falarei sobre o desenvolvimento atual da tecnocracia – algo que outras pessoas já o fazem, como Aaron Day21, Whitney Webb22, Iain Davis23, entre outros, ou já o fizeram, como W. A. Nichols24, Henry Elsner Jr.25 e Allen Raymond26 –, nem sobre a tecnocracia do ponto de vista da ciência política, mas de algumas implicações que podem ser tiradas desse tipo de governo de acordo com o que foi exposto acima sobre a técnica.
A primeira é que, tendo a técnica de governar como objetivo geral o bem do povo governado, nada garante que um governo tecnocrático atinja essa finalidade apenas por ser composto por "técnicos". O motivo disso é que esses governantes empreender uma das ilimitadas possibilidades de empreender essa técnica chamada de governar, utilizando como meio o controle idealmente absoluto sobre as atividades dos cidadãos, o planejamento da sociedade e a sua organização desde cima para atingir tal finalidade. Essa é a aplicação da técnica que esses técnicos põem em prática, o que não os torna mais ou menos técnicos do que qualquer outro governante e, dessa forma, o termo mesmo "tecnocracia" não parece muito exato; entende-se, no entanto, que o caráter tecnocrático do governo revela-se nos fins e nos meios utilizados para chegar até eles, não na forma mesma da técnica de governar (que pode possuir inúmeras ramificações) e que dessa forma são essas finalidades dos agentes que definem a tecnocracia. Não me parece que esse gerencialismo exacerbado logre verdadeiramente o objetivo geral da técnica de governar, possuindo muitas similaridades com os meios socialistas de fazê-lo, bastando uma breve análise sobre os métodos tecnocráticos para compreender os efeitos desastrosos do seu centralismo – mais para os cidadãos do que para os governantes.
A segunda relaciona-se com a primeira: nada garante que em um governo de "técnicos" haja desenvolvimento da técnica entre seus súditos. Um dos motivos é que o planejamento e o controle quase totais sobre os cidadãos determinaria o escopo e os limites das técnicas possíveis dentro desse governo, provàvelmente dando preferência àquelas cujos fins são a produção em massa e o desenvolvimento econômico e de instrumentos militares27, restando pouco ou talvez nenhum espaço para as "técnicas do espírito" e sua influência. Os agentes técnicos do governo, decidindo através do planejamento quais técnicas são preferíveis, limitaria as possibilidades do desenvolvimento técnico geral – mesmo daquelas que, sob o ponto de vista formal, são essenciais ao ser humano. Paradoxalmente, a tecnocracia pode ser mais prejudicial para as técnicas do que outros tipos de governo.
Se o governante tem como objetivo principal o "desenvolvimento da técnica", seja ela qual for, e não o bem dos governados, ele deixa de ser um bom governante – tanto no sentido formal quanto no valorativo; pois sendo a técnica uma atividade de cada um, presente em todo ato por excelência humano, o melhor governante é aquele que aplica a técnica de governar com o objetivo de possibilitar o maior número de técnicas particulares que tenham como finalidade o fim essencial do homem. Como o valor dessas diversas técnicas depende do homem e não da técnica em si, o desenvolvimento daquele é mais importante do que o dessa, tanto do ponto de vista lógico (pois a técnica depende do homem) quanto do valorativo (é o homem quem torna uma técnica boa ou má).
Conclusão.
Algumas afirmações gerais podem ser tiradas do presente texto:
– A técnica, sendo a forma de uma atividade exercida conscientemente que visa a determinado fim, está presente em qualquer ato humano e, dessa forma, qualquer atividade humana é técnica por definição, nem mais, nem menos.
– Estando o valor da técnica na sua aplicação e não na sua forma, sòmente enquanto ato ela pode ser boa ou má; ela em si mesma é "neutra".
– Sendo o ser humano o agente da técnica, é ele quem determinará o seu valor e a sua finalidade particular – estas espelhando o valor e a finalidade do humano que a exerce.
– A finalidade de qualquer técnica particular está subordinada à finalidade essencial do ser humano.
– Os efeitos das técnicas são melhores entendidos tendo em vista o agente delas e não elas mesmas (como ocorre em uma "análise formal" da técnica).
Essas conclusões podem servir para estudos de outras áreas da realidade e creio que essa aplicação seria de grande proveito, aumentando a porção de conhecimento que o homem possui da Verdade e ajudando-o a cumprir sua vocação nessa vida: amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como ele mesmo.
A diferença pode ser vista nas seguintes expressões: praticar a corrida e conhecer a técnica da corrida. A atividade se pratica, a técnica se conhece. Quem “conhece a prática” (o modo ou as regras de praticar), conhece a técnica; quem “pratica a técnica da corrida”, põe em prática a corrida. Por isso a diferença entre forma e prática.
“Porque una cosa es, ante todo, la serie de condiciones que la hacen posible —Kant decía «condiciones de su posibilidad», y, más sobria y claramente, Leibniz sus «ingredientes», sus «requisitos».“ (p. 39); “La inteligencia técnica es una capacidad, pero la técnica es el ejercicio efectivo de esa capacidad, que muy bien podía quedar en vacación. Y la cuestión importante no es apuntar si el nombre tiene tal o cual aptitud para la técnica, sino por qué se da el hecho de ésta y ello sólo se hace inteligible cuando se descubre que el hombre, quiera o no, tiene que ser técnico, sean mejores o peores sus dotes para ello.“ (p. 40), em Meditación de la técnica, de José Ortega y Gasset.
Tiro essa idéia do biólogo Jakob von Uexküll.
Do latim, percipere. “Per-”, completamente, de todo. e “capere”, pegar, agarrar. Os animais não percebem nesse sentido, pois não possuem consciência do “todo”.
Seria interessante uma análise detalhada, sob esse ponto de vista, dos chimpanzés de Köhler.
“Pero volvamos a la técnica primitiva. Se da, pues, en el hombre todavía como naturaleza. La expresión más propia de ella sería decir que verosímilmente las invenciones del hombre auroral, producto del puro azar, obedecen al cálculo de probabilidades; es decir, que dado el número de combinaciones espontáneas que son posibles entre las cosas corresponde a ellas una cifra de probabilidad para que se le presenten un día en forma tal que él vea en ellas preformado un instrumento.“, em Meditación de la técnica, p. 46, de José Ortega y Gasset.
“To afford a significant setting of the stage a particular pattern must occur simultaneously and in perceived connection with another pattern with which it may be combined in a new synthesis. It is a chance occurrence in the sense of being unforeseen and unplanned.”, em History of Mechanical Inventions (1954), p. 78, de A. P. Usher. A ocorrência é mera “chance”, mas não a percepção das conexões.
The Origins of Invention (1895), p. 113, de O. T. Mason.
Por ser uma análise filosófica, utilizarei o termo ‘espírito’, não ‘Deus’. Ficará claro que, nesse texto, ambos são intercambiáveis e espero que nessa possível troca não surja nenhuma incongruência com a doutrina católica.
“Man shares some aspects of his being with nonhuman primates who display elaborations of social relations, social organization, and communicative systems of some sophistication; however, man’s habit of surrounding himself with a material world primarily of his own creation makes him very different from other primates and other mammals.”, em From the Hand of Man (1970), p. 141-2, de Robert F. G. Spier.
“Y notábamos que, en efecto, el hombre mostraba un raro y obstinado empeño en vivir. Pero esta expresión, ahora lo advertimos, era equívoca. El hombre no tiene empeño alguno por estar en el mundo. En lo que tiene empeño es en estar bien. Sólo esto le parece necesario y todo lo demás es necesidad sólo en la medida en que haga posible el bienestar. Por lo tanto, para el hombre sólo es necesario lo objetivamente superfluo.”; “De donde resulta que hasta lo que es objetivamente necesario sólo lo es para el hombre cuando es referido a la superfluidad. No tiene duda: el hombre es un animal para el cual sólo lo superfino es necesario.”, em Meditación de la técnica, p. 12; 13, de Gasset.
“[...] scientific and technological progress is in a certain sense neutral so far as human values are concerned. Observational sciences do not of themselves distinguish between good and evil. Moral judgements must be based on a comprehensive consideration of man’s nature and destiny.”, em Man and Energy (1955), de A. R. Ubbelohde. É o homem quem dá sentido e valor às técnicas. Mais sobre isso na parte sobre a neutralidade da técnica.
“El hombre, quiera o no, tiene que hacerse a sí mismo, autofabricarse. Esta última expresión no es del todo inoportuna. Ella subraya que el hombre, en la raíz misma de su esencia, se encuentra, antes que en ninguna otra, en la situación del técnico.”, em Meditación, p. 25, de Gasset.
Citação completa: “The particularity of the mode of action is to be found in the technique rather than in the ultimate end. As analysts and historians we are concerned primarily with the modes of behavior developed in seeking the end, not merely with the end itself. The identity of ultimate ends does not prevent much diversification in the development of techniques of want gratification; and we cannot presume that these earlier diversities will ultimately converge toward some single and uniquely superior technique. Our presumptions should look toward the indefinite persistence of much diversity in action and in thought.”, em History of Mechanical Inventions, 1954, p. 41, de Usher.
“El hombre, en cambio, dispara un nuevo tipo de hacer que consiste en producir lo que no estaba ahí en la naturaleza, sea que en absoluto no esté, sea que no está cuando hace falta. Naturaleza no significa aquí sino lo que rodea al hombre, la circunstancia.”; “De donde resulta que estos actos modifican o reforman la circunstancia o naturaleza, logrando que en ella haya lo que no hay —sea que no lo hay aquí y ahora cuando se necesita, sea que en absoluto no lo hay.”, em Meditación, p. 6; 8, de Gasset.
Coloco a essência como causa formal no sentido de que a finalidade da técnica é sempre o ser humano mesmo e, dessa forma, não pode ser entendida sem a essência deste. Como o empreendimento técnico depende da finalidade que o ser humano coloca, e esta da sua essência ou forma (”fórmula”), a essência pode ser vista (analògica ou literalmente) como causa formal da técnica.
“Certain Arts are called mechanical, that is adulterine or imitative, because they are concerned with manual activity, which doth borrow the manner of Nature [...] Mechanics is a form of knowledge which must embrace the methods of production of all things.”, em A History of Western Technology (1975), p. 76, de Friedrich Klemm.
“Por exemplo, o que agora nós fazemos, beber, cantar, conversar, nada disso em si é belo, mas é na ação, na maneira como é feito, que resulta tal; o que é bela e corretamente feito fica belo, o que não o é fica feio. Assim é que o amar e o Amor não é todo ele belo e digno de ser louvado, mas apenas o que leva a amar belamente.”, parte do discurso de Pausânias no Banquete, de Platão.
Como todo desenvolvimento o é para algum fim, e como a finalidade do homem é Deus, está claro que não dou o sentido moderno à essa expressão. O desenvolvimento material do homem depende do desenvolvimento em direção à completude, que é a Salvação. “Sede vós pois perfeitos, como é perfeito o vosso Pai que está nos céus.” (Mt 5:48)
A técnica nunca é um fim em si mesma; freqüentemente essa expressão é usada erròneamente para designar determinada técnica cuja finalidade não é boa para os seres humanos, apesar de garantir certo desenvolvimento material. O fim, portanto, é o desenvolvimento material, não “a técnica em si mesma”.
The Final Countdown: Crypto, Gold, Silver, and the People’s Last Stand Against Tyranny by Central Bank Digital Currencies (CBDCs), 2024, de Aaron Day
Escreve e grava vídeos na web.
The Technocratic Dark State, 2025, de Iain Davis
“Technocrats and Society”, 1964, de W. A. Nichols
The Technocrats: Prophets of Automation, 1967, de Henry Elsner Jr.
What is Technocracy?, 1933, de Allen Raymond
A História o prova, desde Arquimedes, passando pelo Império Romano, pelo desenvolvimento medieval dos diversos instrumentos bélicos e por talvez toda a história desse desenvolvimento na Alemanha.

